De uns tempos para cá tenho ouvido uma declaração repetida.Veio de bocas amigas.Veio de corações irmãos. Ecoou, reverberou e me calou ao saber que o mesmo efeito se dava com elas: "não conseguir falar sobre algo". Um efeito potente que paralisa a voz, a emissão de sons.Os movimentos nada sofrem, não se alteram, somente certas vibrações da voz ao emitirem determinadas palavras. Não, não é nenhum fator puramente físico, mas que possui fortes ligações entre o que sei, o que sinto, e o que não consigo dizer.
Já senti isso.Já vivi isso.Não é agradável, ao contrário, é uma sensação de sufocamento estranhíssima que aparece quando se faz necessária a tal declaração. Mesmo não a proferindo, ela está presente bem á altura dos lábios, mas colada, não se solta dali. Parece ironia, palavras ocultas de propósito, mas afirmo, não é o que acontece de fato.É parecido como quando sonhamos que devemos correr, mas não saímos do lugar e uma ansiedade brutal toma conta daquele instante.Acordamos suados, com pulso acelerado que vai se acalmando ao nos vermos acordados, livres daquele pesadelo.
O que assusta é quando temos a certeza de que não é sonho, mas a dura realidade, que se impôs através de um triste diagnóstico e pela fala de um profissional. Quantas pessoas tem vivenciado uma história assim? Muitas.A minha se deu através da doença de minha mãe.Passei meses sem conseguir relatar às pessoas amigas qual era o real estado dela. A simples menção de todos os detalhes me emudecia de uma tal forma que devo ter passado por uma insensível mal-educada. Mas, simplesmente eu não conseguia me expressar sobre os acontecimentos, nem em minha casa eu detalhava algo. Levei anos com esse sintoma e até hoje não me livrei totalmente dele, e gelo quando vejo-o manifestado em alguém, ainda mais quando este alguém é querido(a).
Uma perguntinha de praxe, completamente inocente,tipo: __ Como vc está?
Desencadeia a resposta indesejada: __Não vamos falar disto agora.Outro dia eu te conto...
Pronto! Tá selada a sentença ou melhor, tá excluída a legenda, mas a gente sabe ler nos olhos, nos gestos, no toque e eles falam em alto e bom som.Os sinais são legíveis à beça.Mesmo dando um sorriso amarelo de vamos em frente, o ar pode ser cortado à faca ( expressão antiga), e na tentativa de seguir conversando permanece acima das nossas cabeças um letreiro em néon vermelho piscante : Algo vai mal."
O assunto fica ligeiro e a gente se despede com um amargor na boca. Na nossa, que não teve como invadir uma seara murada pelo sofrimento, na dela que retém neste sabor toda a quantidade de palavras não ditas. Os passos na calçada vão ressoando questões: "será que devo correr até ela e, ajudá-la a se abrir?" Mas, em seguida minhas próprias lembranças me tocam e eu percebo que de nada adiantará isto.A palavra tem de vir na hora em que o coração ou a alma ou a razão, libertá-la. Não basta querer falar sobre algo é preciso poder fazer isto.
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Imagem: tumblrgbn3v
O assunto fica ligeiro e a gente se despede com um amargor na boca. Na nossa, que não teve como invadir uma seara murada pelo sofrimento, na dela que retém neste sabor toda a quantidade de palavras não ditas. Os passos na calçada vão ressoando questões: "será que devo correr até ela e, ajudá-la a se abrir?" Mas, em seguida minhas próprias lembranças me tocam e eu percebo que de nada adiantará isto.A palavra tem de vir na hora em que o coração ou a alma ou a razão, libertá-la. Não basta querer falar sobre algo é preciso poder fazer isto.
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Imagem: tumblrgbn3v



