quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Poesia em forma de oração



 Mundo pequeno 

( Manoel de Barros)  

"O mundo meu é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Formigas recortam roseiras da avó.

Nos fundos do quintal há um menino

 e suas latas maravilhosas.

Todas as coisas deste lugar

 já estão comprometidas com aves. 

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,

os besouros pensam que estão num incêndio.

Quando o rio está começando um peixe:

Ele me coisa,

Ele me rã,

Ele me árvore.

De tarde, um velho tocará sua flauta

para inverter os ocasos." 

(*do: O livro das Ignorãças) 



Oração

(Manoel Bandeira- trecho)

"Santa Clara, clareai

Estes ares,

Dai-nos ventos regulares,

de feição

Estes mares, estes ares, clareai...



terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Tempo de celebrar



     Cá estamos nessa proximidade  ao tempos das festas do fim do ano, de mais esse ano um tanto estranho, fora dos padrões que gostaríamos. Cá estamos então, e isso é dádiva! 

      Contamos os dias para as celebrações que nos devolvem uma alegria genuína enraizada nas tradições do Natal: tempo de celebrar vida nova! 

  Anoto em minha lista de preparativos: votos de dias mais felizes para todos onde reine a alegria nos lares e nos corações, saúde plena, euforia nos encontros, abraços intensos e risos soltos.  Tenham festejos luminosos, amigas e amigos da blogosfera, contendo todos os ítens da lista de meus desejos. 

Desejo para vcs, um Natal abençoado abrindo um mundo de venturas para o Ano Novo!

"A vida só é possível reinventada!"

(Cecília Meireles)



Gente querida, o blog estará de férias a partir do dia 09/12, e eu também. Nos veremos em janeiro. Até lá! 



quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Território da poesia




  De olhos fechados , imagino o momento

 que cristais do mar combinaram o marulhar. 

Assim foram, de onda em onda arando a areia, 

escavando o lugar. 

No constante empurrar, o chão molhado fez-se largo, 

aumentou o passar. 

Nasceu um território farto e extenso em seu vagar. 

 Foi crescendo, crescendo sem alarde, 

com magia, com cultivos de flores,

 e cantos das sereias do mar. 

Nenúfares brotaram ali. 

Albatrozes as vieram visitar. 

Árvores centenárias pediram ao ventos

sementes sopradas para ali germinar. 

No rodamoinho do tempo muita vida se instalou

 e o espraiado inicial ganhou espaço pulsante

a tudo embelezar. 

Encantamento tamanho atravessou o céu

e lançou convites ao luar.

 Em segundos começaram a chegar,

pessoas inspiradas, poetas e escritores

para ali habitar.



domingo, 28 de novembro de 2021

Um conto contado



Ela era um brotinho tímido semi-pendente na rama menorzinha do caule. As pessoas nem a percebiam. Só tinham olhos pra exibida estufada bem assentada na ponta mais alta da folhagem. Ela não se importava. Tinha certeza que seria muito mais bela que aquela metida lá de cima.

Abriram suas pétalas quase que simultaneamente. A primeira farfalhava à passagem de qualquer brisa mais forte, enquanto ela meio escondida pelas folhas verdinhas ficava protegida das intempéries e da sanha dos predadores.

Foi curta a vida glamorosa da dona do caule. Teve seus dias de brilho, mas, rapidamente perdeu o viço, embaçou as pétalas que amarelavam da ponta para a corola mudando a textura antes sedosa em palha quebradiça.

 Ela viu cada fase acontecida com a primeira e decidiu que com ela seria diferente. Guardaria em si toda força que lhe coubesse para renascer sempre com mais vigor. Como foi capaz de tal proeza? Ninguém nunca soube explicar, mas, era de conhecimento dos frequentadores a presença elegante dela: a magnólia maluquinha, que florescia em todas as estações naquele pequeno jardim. 



sexta-feira, 19 de novembro de 2021

A Chave do Saber

(*)

 Quando o engenho humano criou um objeto capaz de, a um simples giro, abrir ou fechar passagens, alçou mais um degrau do progresso criativo da humanidade. Registros constam que chaves e respectivas fechaduras datam do antigo Egito há mais de 4000 anos, sem provocar nenhum alarde exposto no cinema ou na televisão(rs).

Nas asas da velha oralidade correu de Menphis à Tebas a notícia da engenhoca que dava segurança às casas e seus moradores. Daí, para adentrar nos palácios  com seus tesouros inigualáveis, foi um pulo inovador e histórico.

Correram os séculos e a chave foi sendo aprimorada, adornada, elaborada para uma eficiência cada vez maior em seu uso, contudo, em vias paralelas acontecia surpreendente atribuição ao objeto, que creio eu, não tinha afigurado nos propósitos do inventor: como adjetivo das emoções.

Abriu-se um campo farto nominativo para os escritores, poetas, românticos de todas as épocas a utilizarem uma chave figurativa em suas intenções. A chave abria versos para destrancar corações fechados. Abria portais de mundos mágicos. Abria tramas detetivescas. Abria sonhos, histórias, canções, segredos bem guardados. 

Uma porta que contivesse uma fechadura art-noveau era tida como obra de arte podendo até figurar em exposição, o que seria de agrado de alguns apreciadores; noto, atualmente, serem  poucos os que percebem a importância deste invento, até o dia em que esquecem a chave de casa no escritório ou a chave do carro dentro dele, neste caso só o chaveiro salva a situação. 

A chave é tão milenar quantos as pirâmides e, como elas, continua a causar assombros em todas as idades, sim, pois, desde os primeiros conhecimentos na língua e na linguagem é preciso que cada aprendente descubra a " chave da leitura" para abrir as associações na formação das palavras e adentrar no mundo da leitura e da escrita com propriedade.

Como utensílio ou como aporte artístico, antiga ou moderna, a chave atravessa os primórdios da nossa história avançando os séculos reinventada, mas, essencialmente preservada na  originalidade para a qual foi atribuída:  abrir e fechar passagens.


(*)- pinterest/devianart