domingo, 30 de abril de 2023

Nas cores de Abril



CORES DE ABRIL

          

Fui lá, entrelaçar mãos

na roda dos afetos.

Fui lá, colher sorrisos e semeá-los 

no canteiro dos amores crescidos.

Fui lá, embalar corações

em cantigas reconhecidas.

Fui lá, girar ao contrário 

os ponteiros das horas.

Fui lá, cozer o ontem, o hoje

e o amanhã com linhas vivas

num bordado caprichado.

Fui lá, arrumar ramalhetes

de flores e cores variadas.

Fui lá, somar memórias

às gargalhadas francas.

Vim de lá com a alma faiscante

em brilhos adornando meu olhar.




terça-feira, 4 de abril de 2023

Palavras acordadas


*
 A escritora dormiu.

As palavras se estocavam debruçadas umas nas outras, esperando.

A escritora via o sol, sentia a brisa, olhava a lua.

E nada escrevia.

Chegava o Natal, o Carnaval, a Páscoa...

Nada.

Lápis, caneta, papel, tablet, computador, máquina de escrever(!?), cadê?

As palavras estavam revoltadas, ensaiavam uma rebelião.

A escritora continuava dormindo, à sono solto.

Chega de poesia!

Então, vamos à prosa.

Chega de prosa!

A escritora ouvia delações, reclamações, discussões.

Tudo inútil.

Silêncio.

Psiu! Fiquem quietos, a escritora está dormindo.

As palavras se desmancharam em letras perdidas.

Se uniram em línguas desconhecidas.

Enlouqueciam esquecidas.

Acorda, escritora, acorda!

Gritavam, gemiam, choravam, sussurravam.

Um olho piscou, um braço espreguiçou...

As palavras se abraçaram:

A escritora ACORDOU!

( poema de Regina Helena Dias, in: Coletânea Sumo/2019)

** 






segunda-feira, 27 de março de 2023

BC- Uma imagem/Um conto- março


( Manhã no farol- original pintado com o pé, por Lucas Luciano Silva)
 


A série, uma imagem e um conto, traz neste março festejado, mais uma proposta feita pela amiga, Norma Emiliano(pensandoemfamilia.com), através das imagens do calendário de artistas pintores com boca ou pés.


Vida nova

Uma tarde como tantas outras cheia dos ruídos das gaivotas por toda ilha transcorria sem novidades, aparentemente, porque na casa do faroleiro, aquela tarde era anúncio de muita alegria pela chegada do pequeno Nicolau que já mostrava seus fortes pulmões.

Pais e parteira, sorriam quase que deslumbrados ante o acontecimento e cercavam o bebê de todos os cuidados. Após o banho e procedimentos de praxe, foi pra sua primeira mamada , o guloso. Satisfeito, olhava fixo para a mamãe, que apesar de exausta queria deixá-lo aconchegado ao peito.

O pai, mal cabia em si de contentamento e insistiu com a parteira que levaria Nicolau até a porta da casa para ser apresentado ao farol do qual se orgulhava. Teve resistência, mas não cedeu. Prometeu ser bem rápido na apresentação.

Com o bebê enroladinho nas cobertas, saiu para fora rodeando a casa e aproximando-se da imponente construção, falou:

___Veja, meu filho, é aqui que dedico meus esforços em proteger a vida nas embarcações que aqui costeiam. E assim, também, te protegerei noite e dia pela vida afora. Conte sempre comigo.




quinta-feira, 23 de março de 2023

Cantando o outono


 

Canção do Outono 

                                         Cecília Meireles   

Perdoa-me, folha seca,

Não posso cuidar de ti

Vim para amar neste mundo,

e até do amor me perdi 


De que serviu tecer flores

Pelas areias do chão,

se havia gente dormindo

sobre o próprio coração?


[...] Tu és a folha de outono

voante pelo jardim.

Deixo-te a minha saudade

__ a melhor parte de mim.

Certa de que tudo é vão.

Que tudo é menos que o vento,

menos que as folhas do chão...



Quero colher o outono

nas claridades das manhãs

abertas, sem sombras,

e anunciadas em cores

estas manhãs desejadas,

 são dadivosas ofertas

de graças abençoadas. 



(Imagem/blog:momentosdeleitura)


domingo, 19 de março de 2023

BC-( III)- Março/ Pelo mês mundial da poesia


Gira lindamente essa roda poética, proposta pela amiga Rosélia, em seu blog:escritosd'alma.com, como motivação neste mês de março, dedicado à poesia.

Viva a poesia que nos habita e alegra!




Encantamentos


Tão absorta estava ela, 

que confundia-se entre

 a história e o lugar, 

partes de um mesmo enredo, 

tudo se conjugava 

num único sentir e sonhar. 

O perfume das flores, 

o canto dos pássaros, 

a brisa amiga, 

o farfalhar das folhas, 

ali lhe acompanhavam, a ela, 

a moça do chapéu enfeitado,

leitora serena da história

nas páginas estampadas,

num mundo deleitado.

💚