Sinto, por vezes, que estou sendo levada por uma enxurrada furiosa que não se detém ante obstáculos , seguindo ruidosa seu curso desgovernado para destino desconhecido. Não é pesadelo ou qualquer fato semelhante. Pra meu lamento, é a realidade de bocarra escancarada num esgar irônico a me deixar atônita, quase paralisada. Quase... sim, porém, não totalmente e, reajo com ímpeto, com revolta, com fé, refutando com vigor tais fatos aterroradores, me ancorando na crença de que ainda há consciência humana nos seres de igual adjetivo.
Vou lançar minha voz , meu empenho, meu credo para além das fronteiras físicas e me filiar a todos que como eu, crêem que um mundo mais humano é possível, é viável.
Às vésperas do dia Professor, encara-se uma tragédia humana desproporcional como todas que lhe são assemelhadas e nos deparamos com mais uma barbárie tenebrosa a nos tirar o chão reduzindo nossa compreensão diante do sucedido onde perguntamos: "porquê?"
Não há resposta, creio eu. Podemos, no muito, confortarmo-nos com algumas poucas reflexões pinceladas a darem um vislumbre sobre a causa, mesmo assim, sou descrente que desta se encontre qualquer explicação plausível.
Lendo um artigo da filósofa-pensadora norte-americana, Martha Nussbaum, conhecida por defender um ensino permeado de humanidades, encontrei alinhamento para meus pensamentos sobre este e muitos outros fatos recentes da nossa triste história urbana.Diz ela:
" Faço distinção entre empatia e compaixão - e é de compaixão que precisamos. Empatia é só a habilidade de pensar como é estar no lugar do outro. Não é moral...Compaixão diz que os obstáculos enfrentados pelo próximo são ruins. Podemos senti-la sem imaginar a vida do outro, como quando nos compadecemos de animais."
A citada filósofa permeia seu trabalho em áreas da antropologia,da psicanálise e da sociologia na busca pela eudaimonia, palavra grega que representa uma vida plena e próspera.
Constatar o quanto nossa realidade está longe deste ideal me assusta, mas também não paralisa.Posso ser tachada de Pollyana, posso ser considerada ingênua, não temo nada disso. Antes ser quixotesca e avançar como puder contra os moinhos empedernidos em descalabros e desumanidades , do que encolher-me chorosa e desesperançada.
