sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Muito ou Pouco



( A Pensativa)


" O cotidiano mata a transcendência", disse Clarice Lispector, e reafirmo eu, por comprovação cabal do quanto o novelo diário nos enreda.Vamos deixando, procrastinando o correr dos dias no elenco do mais urgente, do compromisso pendente, do que não pode estar ausente e, não vemos que na outra ponta, extremo deste novelo, estamos nós atadas, embaraçadas, torvelinhadas, sem precedentes.

Primeiro eles. Primeiro elas; em segundo nível, a casa e suas necessidades, os afazeres, os perfazeres, os dias todos, nossas horas passadas. Somos ventania pelos cômodos da casa, pelas calçadas lotadas, cumprindo uma agenda memorizada.E nós, esfumaçadas, quase aladas. 

Onde deixei minha essência? Onde está minha consistência? Cadê minha permanência...

Naquilo que nos absorve, 
seja  por muito ou pouco tempo,
 traz inserido na mistura da existência, 
o muito ou o pouco que lhe dá forma,
 consistência. 
Muito ou pouco sal, preferência.
 Muito ou pouco açúcar, tendência.
Muito ou pouco tempo, paciência.
Muito ou pouco vagar, consciência.
Muito ou pouco ajudar, transcendência.
Muito ou pouco julgar, inteligência. 


Perdida não está. Escondida, talvez. Venho removendo os entulhos que me soterraram por tempos e recomeço a distinguir minha forma, meus gostos, meu jeito; aparecer, pra nunca mais sumir.