Passei o último ano em vigília muda pela casa em frente.Explico: uma bela casa em frente à minha foi vendida para dar lugar a um prédio.Se pensamento bloqueante tem força, confesso que gastei o meu estoque desejando um milagre, um retrocesso na venda, um sei lá o quê que desfizesse o feito e a casa da frente retomasse seus dias de glória na rua.
O muro alto não impedia que a imaginação corresse solta adivinhando o cuidadoso jardim que se deixava exibir extra-muros.Tinhorões, coqueiros,azaléias, jasmineiros conviviam em plena harmonia pelas escarpas da entrada e emolduravam um varandão sobranceiro a oferecer-se para o deleite de quem por lá estivesse.Seus cômodos estendiam-se para todos os lados e para o alto dando a impressão duma hacienda moldada por duplos estilos arquitetônicos.Tinha presença demarcada na rua.Ponto de referência no mapa do bairro até certa manhã; quando acordei com barulho dos motores possantes de caminhões e duma escavadeira.Cheguei ao meu jardim a tempo de sentir o golpe da primeira marretada em sua bela estrutura, ferida aberta que, na sequência dos dias, alastra-se como gangrena contaminadora de seu corpo,de suas raízes/alicerces.
Do tinhorão nada resta.Os coqueiros ainda estão de pé, mas creio que será por pouco tempo.O antes caprichado jardim jaz soterrado sob um monte de escombros.Cena desoladora. Dá um aperto no peito ver-se uma história em ruínas, arrasada sob o peso da ganância imobiliária, monstro de bocarra dentada que vai transformando a cidade numa selva de pedra vertical.
A mim, resta o lamento pelo que tudo isso representa para nós moradores, para o bairro, para a natureza do lugar. Avizinham-se dias incômodos,ai,ai...
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