*" Um dia o rei ficou surdo.Não como uma porta, mas como uma janela de dois batentes.Ouvia tudo do lado esquerdo, do direito não ouvia nada[...]"
Foi-se o tempo que esta estranha enfermidade do rei acima citado era aceita como verdade absoluta, a dicotomia estabelecida como limite demarcado pelos lados orientados.O que acontece do lado de cá não tem nenhuma relação com o lado de lá; controvérsias conhecidas e comprovadas.São muitas as situações que provam a interligação ressonante, estabelecendo laços pra lá e pra cá, em pequenas ou grandes espirais, em ciclos curtos ou longos, em ramificações restritas ou extensas.
Vivemos em rede,mais que isso, somos a rede.Uma rede física, mental e holística que a todo momento nos retifica sua existência miraculosa em todos os seus meandros.
Ouvir a cor do mar, ver a melodia dos ventos, falar no silêncio dos brotos nascidos, tocar o canto de um pássaro, sentir o aroma das nuvens,provar o sabor do amanhecer...Desaprender a rigidez dá-nos vivências inesperadas que sempre foram possíveis e bem conhecidas das crianças e dos poetas; um mundo ao alcance de todos(as) nós.
"[...]Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores."
(Manoel de Barros)
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* Excerto do conto de Marina Colassanti, Uma ideia toda azul.
* Excerto de crônica do livro: Memórias Inventadas, Manoel de Barros