Primavera chegada, ainda pisando de mansinho os dias, alternando abafamentos com claridades típicas da estação e em mim disparando nos ares do tempo meus afazeres.Hora de pegar meu boné xadrez, minha lupa e sair circundando cada centímetro da casa procurando defeitinhos e quebradinhos.Caderninho na mão anoto tudo pra não deixar passar nenhum reparo a ser feito.
Tenho aprendido muito nestes últimos sete anos aqui.Me descobri uma intrépida reparadora de pequenos consertos.Já sei distinguir entre fita isolante e uma fita veda-junta,húhú!Não riam, porque pra mim, rata da cidade, isto foi um avanço e tanto.Outro que se seguiu a este, foi o do desengripante.Morar perto do mar cobra seu preço.A maresia corrói tudo que tenha resquícios de ferro e a manutenção é trabalhosa.Pois foi numa destas reparadas que ouvi do técnico do portão da garagem o nome do tal produto desengripante.Claro que fiz cara de entendida e disse que compraria no dia seguinte.
Chegando na loja de materiais descobri que o tal era, nada mais nada menos, que um lubrificante doméstico e funcional.Amacia fechaduras, correias,motores de eletro domésticos, janelas emperradas e mais o que sua imaginação quiser.
Na minha, imaginei o quanto um desengripante mágico seria eficaz pra amaciar uma zanga, uma palavra ríspida, uma intolerância, uma explosão de raiva e tantos outros sentimentos que estão cobertos por uma camada tão densa de ferrugem que nem deixam outras possibilidades lhe darem um lustro.Cascorados em vermelho-ocre embaçam qualquer claridade que tente se infiltrar na couraça armada e ainda sustentam enganosamente uma razão corrosiva que despreza os sentimentos alheios.
Quantas ferrugens deixamos crescer em nós e às vezes até nos orgulhamos disso; ledo engano.Tudo o que deixarmos nos encouraçar também irá nos aprisionar podendo nos afastar de boas renovações, de novos caminhos.Todos temos histórias de ferrugens ensinadas, assumidas, incorporadas, o que não quer dizer que sejam irremovíveis, se assim o desejarmos.Uma pintinha de ferrugem aqui, outra acolá, parecendo marquinhas inofensivas de nossas defesas, podem com o tempo alastrarem-se assustadoramente nos empedernindo debaixo delas.Termos o bom senso de distinguirmos entre as manchas nocivas e as que nos embasam sem confundir ambas, é essencial.O que não faltam são oportunidades pra isso, que não devem ser perdidas.Bora, passarmos uma flanelinha com desengripante em cada manchinha ferruginosa que nos paralisa e afasta das renovações?
"Eu quero desaprender para aprender de novo.Raspar as tintas com que me pintaram.Desencaixotar emoções, recuperar sentidos!"
Rubem Alves
*********
Imagem:grazytumblr
Tenho aprendido muito nestes últimos sete anos aqui.Me descobri uma intrépida reparadora de pequenos consertos.Já sei distinguir entre fita isolante e uma fita veda-junta,húhú!Não riam, porque pra mim, rata da cidade, isto foi um avanço e tanto.Outro que se seguiu a este, foi o do desengripante.Morar perto do mar cobra seu preço.A maresia corrói tudo que tenha resquícios de ferro e a manutenção é trabalhosa.Pois foi numa destas reparadas que ouvi do técnico do portão da garagem o nome do tal produto desengripante.Claro que fiz cara de entendida e disse que compraria no dia seguinte.
Chegando na loja de materiais descobri que o tal era, nada mais nada menos, que um lubrificante doméstico e funcional.Amacia fechaduras, correias,motores de eletro domésticos, janelas emperradas e mais o que sua imaginação quiser.
Na minha, imaginei o quanto um desengripante mágico seria eficaz pra amaciar uma zanga, uma palavra ríspida, uma intolerância, uma explosão de raiva e tantos outros sentimentos que estão cobertos por uma camada tão densa de ferrugem que nem deixam outras possibilidades lhe darem um lustro.Cascorados em vermelho-ocre embaçam qualquer claridade que tente se infiltrar na couraça armada e ainda sustentam enganosamente uma razão corrosiva que despreza os sentimentos alheios.
Quantas ferrugens deixamos crescer em nós e às vezes até nos orgulhamos disso; ledo engano.Tudo o que deixarmos nos encouraçar também irá nos aprisionar podendo nos afastar de boas renovações, de novos caminhos.Todos temos histórias de ferrugens ensinadas, assumidas, incorporadas, o que não quer dizer que sejam irremovíveis, se assim o desejarmos.Uma pintinha de ferrugem aqui, outra acolá, parecendo marquinhas inofensivas de nossas defesas, podem com o tempo alastrarem-se assustadoramente nos empedernindo debaixo delas.Termos o bom senso de distinguirmos entre as manchas nocivas e as que nos embasam sem confundir ambas, é essencial.O que não faltam são oportunidades pra isso, que não devem ser perdidas.Bora, passarmos uma flanelinha com desengripante em cada manchinha ferruginosa que nos paralisa e afasta das renovações?
"Eu quero desaprender para aprender de novo.Raspar as tintas com que me pintaram.Desencaixotar emoções, recuperar sentidos!"
Rubem Alves
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Imagem:grazytumblr
