terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Pequenas delicadezas



 O que nos salta aos olhos nem sempre ressoa n'alma. São bem maiores as quantidades das horas do dia pelas quais passamos distraídos e, até mesmo, indiferentes ao que nos cerca do que aquelas que nos apontam algum interesse; agrava-se tal constatação quando estamos inseridos na rotina urbana.

Buscando refrigérios para mente e para o espírito, algumas leituras trazem lentes de aumento para nosso velho e conhecido cotidiano.

 Lendas têm o condão de fazer-nos viajar sem sair do lugar. 


O sentido do respeito

( lenda japonesa)

Certo dia, um monge do templo Daitokuji, amigo íntimo do filósofo Sotan, mandou um jovem ajudante entregar a Sotan uma haste particularmente bonita com botões de camélia branca. No caminho, contudo, o botão principal caiu do caule. Depois de pesar as alternativas, o garoto decidiu entregar o caule e o botão caído e pedir desculpas por seu descuido. O respeito inerente no sentimento do jovem ajudante é exemplar; demonstra a reverência por objetos comuns. Mas, ainda notável foi a reação de Sotan: ele colocou o caule num vaso, dependurou o conjunto na coluna do nicho Tokonoma* e depositou o botão no piso do nicho. Desse modo, por respeito à consideração do amigo, ao esforço do jovem e à própria flor; a camélia se revestiu de vida nova no reino da chanoyu*. 

" A beleza está nos olhos de quem vê!"



*(1)_ espaço embutido numa sala de recepção

*(2)_ a cerimônia do chá( Caminho do chá)



quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Poesia em forma de oração



 Mundo pequeno 

( Manoel de Barros)  

"O mundo meu é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Formigas recortam roseiras da avó.

Nos fundos do quintal há um menino

 e suas latas maravilhosas.

Todas as coisas deste lugar

 já estão comprometidas com aves. 

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,

os besouros pensam que estão num incêndio.

Quando o rio está começando um peixe:

Ele me coisa,

Ele me rã,

Ele me árvore.

De tarde, um velho tocará sua flauta

para inverter os ocasos." 

(*do: O livro das Ignorãças) 



Oração

(Manoel Bandeira- trecho)

"Santa Clara, clareai

Estes ares,

Dai-nos ventos regulares,

de feição

Estes mares, estes ares, clareai...



terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Tempo de celebrar



     Cá estamos nessa proximidade  ao tempos das festas do fim do ano, de mais esse ano um tanto estranho, fora dos padrões que gostaríamos. Cá estamos então, e isso é dádiva! 

      Contamos os dias para as celebrações que nos devolvem uma alegria genuína enraizada nas tradições do Natal: tempo de celebrar vida nova! 

  Anoto em minha lista de preparativos: votos de dias mais felizes para todos onde reine a alegria nos lares e nos corações, saúde plena, euforia nos encontros, abraços intensos e risos soltos.  Tenham festejos luminosos, amigas e amigos da blogosfera, contendo todos os ítens da lista de meus desejos. 

Desejo para vcs, um Natal abençoado abrindo um mundo de venturas para o Ano Novo!

"A vida só é possível reinventada!"

(Cecília Meireles)



Gente querida, o blog estará de férias a partir do dia 09/12, e eu também. Nos veremos em janeiro. Até lá! 



quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Território da poesia




  De olhos fechados , imagino o momento

 que cristais do mar combinaram o marulhar. 

Assim foram, de onda em onda arando a areia, 

escavando o lugar. 

No constante empurrar, o chão molhado fez-se largo, 

aumentou o passar. 

Nasceu um território farto e extenso em seu vagar. 

 Foi crescendo, crescendo sem alarde, 

com magia, com cultivos de flores,

 e cantos das sereias do mar. 

Nenúfares brotaram ali. 

Albatrozes as vieram visitar. 

Árvores centenárias pediram ao ventos

sementes sopradas para ali germinar. 

No rodamoinho do tempo muita vida se instalou

 e o espraiado inicial ganhou espaço pulsante

a tudo embelezar. 

Encantamento tamanho atravessou o céu

e lançou convites ao luar.

 Em segundos começaram a chegar,

pessoas inspiradas, poetas e escritores

para ali habitar.



domingo, 28 de novembro de 2021

Um conto contado



Ela era um brotinho tímido semi-pendente na rama menorzinha do caule. As pessoas nem a percebiam. Só tinham olhos pra exibida estufada bem assentada na ponta mais alta da folhagem. Ela não se importava. Tinha certeza que seria muito mais bela que aquela metida lá de cima.

Abriram suas pétalas quase que simultaneamente. A primeira farfalhava à passagem de qualquer brisa mais forte, enquanto ela meio escondida pelas folhas verdinhas ficava protegida das intempéries e da sanha dos predadores.

Foi curta a vida glamorosa da dona do caule. Teve seus dias de brilho, mas, rapidamente perdeu o viço, embaçou as pétalas que amarelavam da ponta para a corola mudando a textura antes sedosa em palha quebradiça.

 Ela viu cada fase acontecida com a primeira e decidiu que com ela seria diferente. Guardaria em si toda força que lhe coubesse para renascer sempre com mais vigor. Como foi capaz de tal proeza? Ninguém nunca soube explicar, mas, era de conhecimento dos frequentadores a presença elegante dela: a magnólia maluquinha, que florescia em todas as estações naquele pequeno jardim.