quinta-feira, 10 de abril de 2014

Fractais de gentilezas espontâneas










" A importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós."
Manoel de Barros


Apesar de sermos sufocados pela enxurrada de fatos lamentáveis pra todo lado, ainda assim conseguimos abrir a janela e recebermos um sopro de ar puro, um facho solar luminoso a nos motivar para o otimismo e para a fé que cultivamos nas pessoas.Ontem vivi essa constatação ao ser acudida por um distinto desconhecido ao me ver sendo abordada por um morador de rua de maus modos que insistia em seu pedido aos berros pela faixa comercial da rua.Dei-lhe os trocados que tinha, mas ele não se dava por satisfeito.Disse-lhe que se encaminhasse para a secretaria de serviço social da cidade, mas ele não me dava ouvidos.Foi aí, que este senhor distinto se interpôs entre eu e o dito morador pedindo-lhe que seguisse meu conselho e tomasse o rumo indicado.Agradeci muitíssimo a gentileza espontânea e segui meu caminho tomada pela boa sensação de que vale a pena acreditar no outro e no que de melhor existe.

Tenho visto em diferentes sites pela web muitos registros de gentilezas espontâneas que fazem a enorme diferença entre um dia triste e um dia alegre.Cada vez mais cresce o desejo de mostrar-se o lado positivo que há no mundo; é quase uma urgência que se coloca diante de tantas tristezas e descalabros acontecidos.Faz-nos bem saber do bem feito.Isso ressalta em nós a validade de nossa fé no humano, de nossa busca por uma prática solidária, por uma vida irmanada no bem e no bom.

Mais um exemplo é dado pela produtora cultural e artesã gaúcha Nonô Joris, que tem dedicado uma parte de seu tempo para alegrar e deixar mais cheiroso o dia das pessoas que passam por sua porta na capital sulista, onde encontram gratuitamente enfileiradas no muro mudinhas de manjericão plantadas em caixinhas reutilizadas.Simples, fácil e carinhosa gentileza que dão sorrisos aos rostos e calor aos corações.





A simpática prática incentivada por algumas cafeterias da cidade em deixar-se um cafezinho pago para o próximo cliente, beneficamente se espalha e ganha outras modalidades, como: deixar-se moedas presas na máquina de refrigerantes, uma flor de uma banca-floricultura...Nesta semana, um cidadão exemplar achou na rua um boleto de conta juntamente com o dinheiro referente.Percebendo o que havia acontecido ao dono(a) do achado, dirigiu-se a casa lotérica e pagou o documento.

Nas diversas maneiras de espalhar-se gentilezas encontramos uma espiral crescente de boas novas pelos mundos: real e virtual.Por aqui, estamos às vésperas do bookcrossing blogueiro e, além disso há uma intensa e benéfica movimentação de gentilezas e carinhos que nos abrilhantam os dias.

Destaque vc também, as gentilezas que recebe e as afixe no painel de teus dias mais luminosos.



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Imagem: catracalivre
nonô joris. com.br/arte e produção


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Espalhando poesia por aí / Desafio dos poemas








De maneira similar, considero as BCs como formas modernizadas do repente nordestino, tradição que remonta ao tempo dos trovadores medievais, que em duplas se "desafiavam" num improviso dialógico através da poesia e da música onde os dois contendores alternavam uma conversa comprida a partir do mote dado pelo outro; um tema pelo qual os artistas se pautam e desenvolvem a partir da habilidade de cada um.

As BCs excluem o desafio propriamente dito e incentivam a conversa interativa através das inúmeras artes de cada participante resultando em páginas de imensa beleza.São textos, crônicas, poemas, haikais, imagens, legendas e tudo o mais que é produzido pela intensa criatividade das blogueiras e blogueiros participantes .Agora com os links entre as diferentes redes sociais, o movimento das Bcs se intensificou ramificando ainda mais as conexões.

Foi assim que a Karin, do blog: meudocelar.blogspot (Aqui), veio a trazer para a blogosfera o desafio acontecido lá no Face. O desafio consta de:

_ espalhar poesia por aí,
_ publicar um poema e escolher mais 5 blogs para participar e avisar aos escolhidos,
__ todo tipo de poesia, tá valendo.

Minhas indicações:

__ Anne Lieri, asasdosversosereversos.blogspot.com
__ Chica, chicabrincadepoesia.blogspot.com
__ Ailime, sinaisdeesperança.blogspot.com 
__ Ana Paula, despassarado.blogspot.com


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Aceito o desafio trago aqui um poema de detalhada sensibilidade criado pela amiga 
Beth Lilás (Aqui) para nosso deleite.

O cheiro da chuva
Lá longe o relâmpago cortou o céu,
seguiu-se o trovão acompanhado de vento forte.
De repente a tarde ficou em brumas.
Os pássaros recolheram-se aos ninhos
e fez-se silêncio.


Somente o barulho da chuva açoitando os galhos

era ouvida e sentida.
O tempo, como parado num fio,
tecia lentamente as contas formadas pelos pingos.

Deitei-me no sofá da sala e acompanhei pela janela
a dança frenética da chuva primaveril sobre os pinheiros.
Tantas vidas ali se esconderam,
quietinhos, todos, penas e pelos.


Nestes minutos mágicos,

a natureza mostrou-se imperiosa,
num harmonioso torvelinho,
provando a todos o quanto é poderosa.


Algum tempo depois

a chuva despediu-se
deixando a terra úmida
fresca, verdinha, sadia e grata.

Pelos e penas se mexiam
e tudo recomeçou,
o farfalhar de folhas,
e a cantoria de pássaros, alegres, de novo.


E com toda gratidão

o cheiro bom desta tarde
guardarei na recordação.

O sopro divino que refrescou
meu jardim e mais ainda,
amorosamente,
meu coração.

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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Uma história, muitas descobertas - livro infantil








Dentre todas as correrias que se multiplicavam no penúltimo mês letivo, nós professoras dos fundamentais I e II , tínhamos uma tarefa inadiável, a de selecionarmos dois livros de literatura infantil para constar da lista escolar do ano seguinte.Embora estivéssemos atoladas de trabalhos mil até a raiz dos cabelos, essa tarefa era vista como prêmio. Os representantes das editoras eram figurinhas fáceis pelos corredores do colégio levando e trazendo pilhas de exemplares para análise. A sala dos professores ficava abarrotada com as diferentes obras e suas histórias cativantes.

Foi em 1999 que tive contato com um livro apaixonante que nós, professores, familiarmente chamamos de livro-mudo; trata-se duma história ilustrada sem narrativa escrita, excelente atividade para desenvolver a oralidade e a coesão textual dos alunos(as), explorando ainda a criatividade e a livre composição.Pois sim, eu sempre fui apaixonada por tais publicações.Uma dessas que me acompanhou por todos os anos que se seguiram é " A Flor do lado de lá", do ilustrador Roger Mello que no mês de março passado foi premiado com O Nobel de Literatura Infanto-Juvenil, o prêmio Hans Christian Andersen, na feira do livro em Bolonha,na Itália.

Por coincidência(será?), eu iria sugerir esse autor para a Luma(Aqui) ao comentar seu post duma indicação de literatura do gênero e, qual não foi minha grata surpresa hoje ao ler sobre o merecido prêmio recebido por esse talentoso ilustrador/contador de histórias.A personagem principal dessa obra é um bichinho simpático que tanto pode ser uma anta ou um hipopótamo ou algo entre esses dois, o que dá margem para a imaginação infantil procurar adivinhar.Os traços expressivos da personagem dialogam o tempo todo com o leitor e despertam a surpresa que a página seguinte trará.A história enfoca os equívocos que nos assediam despercebidamente e o sofrimento inútil que causam.

Um lúdico exercício filosófico sempre atual e bem apropriado para os dias consumistas de hoje, que apesar de termos em mãos uma medida ainda sem força de lei, que considera abusiva toda publicidade para crianças proibindo o direcionamento à criança de anúncios impressos,comerciais televisivos e todos os afins, tratando também sobre a abusividade de qualquer publicidade e comunicação mercadológica no interior dos diferentes espaços educacionais, configura-se apenas como recomendações;resolução de caráter educacional.

Sem dúvida, um bom passo, mas que não pode de forma nenhuma ser único e final.Temos de continuar o empenho em prol duma verdadeira cidadania para nossas crianças e jovens. 

Fica a dica: há muitas publicações classificadas como infantis que superam outras classificadas como adultas.




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sábado, 5 de abril de 2014

Movimento pelo reencantamento do mundo












Que as crianças estão sempre nos surpreendo é fato sabido e apreciado.Por aqui, na família, estamos às voltas com os preparativos para chegada do Rafael, irmão do Miguel, os pais foram atrás dum móvel funcional para o quarto dos dois.O tamanho reduzido dos cômodos dos apartamentos exige criatividade em tudo. Encontraram um bi-berço: cama embaixo e berço em cima.Torci o nariz reclamando que o Miguel poderia não gostar.Errei redondamente. Assim que viu o novo móvel no quarto ele vibrou com sua "cama-secreta", e logo bolou uma brincadeira de esconde-esconde comigo.

É o nosso olhar costumeiro que tira a magia das coisas.A visão de mundo das crianças é sempre encantada, nós adultos é que a transformamos com nossos desencantos experenciados.Deixamos de ver aquilo que deixamos de acreditar e convictos de que as estamos preparando para o mundo apagamos,muitas das vezes, aquele olhar mágico que lhes é natural.

Mas, nem todos os adultos perderam este modo de ver o mundo e há inúmeras provas disto;ao que nos mostram os poetas, os pintores, os artistas, os escultores, os escritores e muitas blogueiras e blogueiros empenhados em reacender a cada dia o olhar mágico que nele reside. Esse olhar que transforma a realidade sem mascará-la, dando-lhe sopros purpurinados que aumentam seu brilho, mas não a escondem.Os que alimentam o reencantamento do mundo estão empenhados em contagiar aqueles que por algum motivo esvaziaram essa visão.

Foi assistindo a um vídeo do escritor moçambicano,Mia Couto,no Youtube, que o termo e o conceito me despertaram para a existência desse movimento "pelo reencantamento do mundo", o qual me cativou de imediato.Há inúmeros artigos, propostas e atitudes nesse sentido e, aqui na nossa blogosfera isso é uma feliz e aplaudida realidade que nos impulsiona cada vez mais nessa direção: a de reencantarmos cada vez mais o maior número de pessoas. 




" AVIDA É DEMASIADO PRECIOSA PARA SER ESBANJADA NUM MUNDO DESENCANTADO!"
 Mia Couto


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Imagem: hypeness ( cada de Hobbit na Nova Zelândia)

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A educação atrás das barras de chumbo - descomemoração à ditadura









"... No fundo é muito difícil viver o exílio, conviver com todas as saudades diferentes__ a da cidade, a do país, a das gentes, a de uma certa esquina, a da comida__ conviver com a saudade é educá-la também[...]", declarou o incansável educador brasileiro Paulo Freire em suas escrituras.

No clamor da data que marca 50 anos dum período de trevas na história brasileira, ressoa por todo país as diversas manifestações de repúdio à ditadura militar.Sabemos da inúmeras vítimas deste regime que ceifou vidas e vitimou  famílias deixando órfãos pais e filhos.Os braços armados do Estado se alongaram como tentáculos multiplicados por todas as áreas da sociedade e a educação foi uma das primeiras a senti-los.

 Paulo Freire foi um dos primeiros brasileiros a ser punido pelo regime autoritário, preso logo após o golpe acusado de subversivo e ignorante por instituir o seu Programa Nacional de Alfabetização, o qual atendia às populações campesinas analfabetas e desfavorecidas na campanha " de pé no chão também se aprende a ler." Em sua batalha contra a opressão em favor da vida e da liberdade consolidou sua proposta de uma educação libertária, que ia ao encontro do aprendente aonde ele estivesse promovendo uma pedagogia aberta, valorizadora das experiências das pessoas e de suas origens.Para a época, uma verdeira revolução no ensinar e no aprender para crianças, jovens e adultos.O menino do campo não seria obrigado a descobrir o alfabeto em cartilhas bonitas, porém diagramadas com símbolos e referências das quais ele jamais tinha entrado em contato e que não lhe significavam nada, ao contrário, promoviam logo desinteresse.Percebendo esse afastamento entre a formalidade e a realidade, o professor Paulo Freire aproximou o ensino da vivência real dos aprendentes, trazendo seus conhecimentos práticos, seus hábitos, sua cultura pras salas de aula improvisadas em galpões, em quintais e onde mais houvesse um espaço propício.No interesse crescente das crianças e jovens, vieram os pais lavradores, camponeses paupérrimos, explorados e esquecidos nos cantões do país.

Essa troca fecunda de saberes foi num crescendo se espalhando e dando frutos; os alunos de todas as idades iam conquistando pouco a pouco sua cidadania, aprendendo a ler o mundo que os rodeava e o que se encontrava distante através dos diferentes suportes de leitura que lhes eram apresentados.Foram ganhando autonomia, desenvolvendo criticidade, dialogando e interferindo em suas realidades ao que isso logo chamou a atenção e o desagrado dos poderosos e assim que a ocasião propiciou reivindicaram ao governo militar a imediata suspensão dessa "nociva prática pedagógica" e a consequente punição de seu idealizador.

Para o opressor não interessa um oprimido pensante, cidadão consciente e pleno de seus direitos, sendo assim a premissa mais uma vez se cumpriu demarcando o que se viu a seguir: um golpe de Estado onde um clima de terror foi infligido a todos os setores da sociedade brasileira perdurando por duas lamentáveis décadas.

Preso por 75 dias, Paulo Freire foi "convencido" a deixar o país, no que resultou em 16 anos de exílio, mas não de resignação acomodada.Movido por seu incansável ideal não se deixou ficar ilhado no espaço imposto, foi em busca dos oprimidos em todas as partes da Terra.Levou sua pedagogia libertária por países das Américas e África interessados numa educação ampla e real.Dialogou com chefes de Estado, acadêmicos de todas as áreas, ministros e pessoas do povo dos lugares por onde passou espalhando a sua pedagogia da esperança.


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O jornal O Diário de Pernambuco produziu um webdocumentário "Filhos do Golpe", onde retrata os acontecimentos decorrentes pelo viés de dez filhos de presos políticos, desaparecidos, assassinados e/ou exilados,  pela ditadura militar.