quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A curiosidade que nos habita







(A.C)

Quem já passeia por aqui a algum tempo deve se lembrar da série : Adoce seu dia, que foi abruptamente interrompida sem maiores explicações; falha minha, espero que perdoável.O motivo pelo qual a pus a tiracolo para pausá-la foi o de não faltar com a devida justiça nas escolhas dos comentaristas e aí, uma coisa levou a outra que culminou na tal pausa escolhida.Aquele velho e conhecido dilema das escolhas: uma acaba por anular outras, pois então, dito e feito, mas sem muita convicção, na verdade um comichão, que de quando em vez me atenta clamando pela reativação da série e convenhamos, material é que não falta(\0/). São carregamentos de comentários preciosos, argumentativos, instigantes, estimulantes e todos os demais adjetivos que se lhes agregam a definição, me incentivando festivamente e permitindo a salutar e nutritiva interação positiva que tanto me motiva.

Foi um destes comichões que me apareceu num dos comentários da postagem de ontem, onde volto mais uma vez a falar de meu ritual matinal, já dito aqui outras vezes, que estampou na semelhança detalhes compartilhados, coincidências fortuitas e tão familiares.Assim como a Mi, do blog: coluna da Mi, gentil comentarista, apontou identidades em nossos gostos matinais demonstrando que o encontro de interesses gera aproximação, tal fato acontece também numa escala maior por pessoas com quem não temos nenhum tipo de contato pessoal ou virtual, mas que de alguma forma trouxeram uma proximidade imaginada; é o caso dos artistas, das chamadas celebridades, dos escritores,pensadores, autores, cantores... Ingenuamente nos comprazemos ao sabermos que uma pessoa que goza de nossa admiração tem este ou aquele hábito idêntico ao nosso, uma familiaridade unilateral, porém apreciada.

Quem não já se perguntou como teria sido o café da manhã de Simone de Beauvoir, qual  a rotina de trabalho de  Georgia O'Keeffe, qual o regime alimentar de Chaplin, e muitas outras pequenas divagações sobre os gostos e hábitos das pessoas que admiramos.Pois essas questões estão na crista da temática do livro: * Daily Rituals: How Artists Work (Mason Currey,2013), que aborda rotinas e hábitos de 161 mentes brilhantes e inspiradoras, dentre curtíssima biografia de escritores, compositores, filósofos, dramaturgos, cineastas e cientistas desfilam as descrições dos hábitos e manias cotidianas desse elenco de notáveis.O livro é quase um almanaque de curiosidades inusitadas, como a do filósofo Kierkegaard, que possuía uma coleção enorme de diferentes xícaras de café e fazia o seu criado escolher a mais adequada para o café da tarde.Ele nunca utilizava a mesma xícara na semana.

Uma palinha destacada no livro mostra pela fresta dos detalhes um pouco da rotina de Simone de Beauvoir( espiem só!)_




Embora a produção de suas obras ficasse sempre em primeiro lugar em sua vida, sua agenda diária girava em torno de seu relacionamento com Jean-Paul Sartre (que escrevia mastigando tablets de Corydrane, uma mistura de anfetamina e aspirina. A recomendação diária de seu médico era de 10 tablets por dia) que durou de 1929 até sua morte em 1986. Beauvoir geralmente trabalhava sozinha na parte da manhã. Juntava-se a Sartre para o almoço no apartamento dele. Passava a tarde trabalhando com ele em silêncio total. À noite participava de eventos políticos e sociais. Em seguida ia para sua casa com Sartre para tomar uísque e ouvir rádio. A rotina seguia da mesma forma no dia seguinte.
Principais obras: Todos os Homens São Mortais, O Segundo Sexo, A Força das Coisas, A Velha. 


Pros curiosos de plantão, e me incluo neste time, a publicação oferece prato farto e variado sobre as pequenas manias dos conhecidos formadores de opinião.Não descobri se já existe a versão traduzida para o português.De qualquer forma, fica a dica prum presente aos apreciadores do assunto.










* Livre expressão minha do texto lido no site: obvius.com
Ilustração: Amanda Cass







terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Imprevistos tecnológicos - Agradecimentos








Quando somos assíduas frequentadoras de lugares e frequências escolhidas com gosto qualquer mudança é logo percebida. Dez dias atrás estava eu percorrendo meus rotineiros hábitos matinais, sendo um deles o de ligar o rádio na cozinha enquanto preparo o café da manhã, tudo em meio ao abre e fecha da geladeira, põe o pão na torradeira, prepara o suco, aquece a água pro café... embalada pela gostosa seleção musical da JB- FM, estação quase permanente no dial do rádio; (ops) do som; ou seja,uma manhã normal entre melodias e gostosuras que animam corpo e alma.

Pois então, nesta passada manhã, durante os tais afazeres, ressoou pela cozinha um som estranho, acelerado, com batidas retumbantes que me despertou a atenção.Estava mesmo acontecendo este tipo de música na JB? Muito estranho!Fui conferir.Não é que o dial ( marcador) da estação estava noutra posição!Eu, heim?Quem mexeu no meu rádio( no meu queijo, até desconfio)? Coisa louca.Devolvi o dito cujo pro canal competente e voltei bem faceira pro meu café, enquanto aguardava o note carregar.

Tempo dado, fui ligar o note e ele nem deu sinal de vida.Como assim? Virei, tirei bateria, fui ler o manual, mudar de tomada e nada.O bichinho pifou, mesmo.Levei pro pronto-socorro tecnológico.Diagnóstico: placa-mãe avariada por queda brusca de energia.Pode??
Não deveria, mas pode sim.Nesta nossa realidade de serviços precários, exorbitantes e deficitários.Resuma da ópera: só hoje o doentinho voltou, mas terá de usar muletas:(

Por isso, só então pude vir aqui, no meu querido bloguinho tão abandonado nesses últimos dias, para agradecer comovida o simpático Prêmio" Xícara de Ouro" recebido através da maravilhosa interação promovida pela Patrícia Galis, do blog: cafeentreamigos, que contabilizou carinhos e gentilezas tão preciosas pra mim.


Obrigada,Patricia.
Obrigada, gente querida pelos carinhosos votos dados ao Fractais.Valeu!






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Imagem: pinterest

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Vôos panorâmicos - cartografia pessoal






( Ed Fairburn)



Uma das inovações que mais curti em meu tempo de estudante foi a estratégia dum professor de geografia ao iniciar o estudo de mapas.Toda a turma esperava que fosse mais uma chatice das habituais onde ele apontaria os detalhes no mapa pendurado na parede e nos fizesse acompanhar a ponta da régua indicativa numa ladainha sobre o lugar, o relevo e coisas e tais.Para a surpresa da turma do 2º ginasial, ele nos mandou arrastar as carteiras pro fundo da sala, colocarmos nossas cadeiras em círculo alongado por todo o espaço central, para então estender o mapa no chão, bem no centro do círculo que se formou.Sentado no chão ao lado do mapa nos conduzia pelos desenhos e detalhes de cada recanto em foco, explorando a visão que acada aluno ia descobrindo, pontuando as distâncias, os contornos e o olhar que a cada um correspondia um mesmo ponto.O que era visto, como era visto, se a visão correspondia à realidade do que estava sendo visto...Nem preciso dizer que a participação foi unânime e interessada.

Nos sentíamos como fotógrafos aviadores sobrevoando os espaços geográficos e deles recebendo uma infinidade de informações que precisavam ser analisadas, discutidas, debatidas e conferidas com esmerado compromisso.Essas aulas eram altamente proveitosas e depois disso nunca mais eu olhei um mapa do mesmo jeito alienado de antes,distante e linear.Passei a ter dali em diante um olhar tão admirador pela cartografia que considero uma das manifestações artísticas de vulto e importância irrefutável e, mesmo adulta continuo nutrindo essa reverência por esta arte.Costumo folhear, de quando em vez, os livros que a retratam.Sou tão fã desta arte que quase me perdi do grupo turístico dentro do museu do Vaticano ao chegarmos nos salões dos mapas.Fiquei sem fôlego, respirando devagar com receio de perder os ricos detalhes das peças cartográficas em tapeçaria; creio ter visto Marco Pólo numa caravela(rs).

Os mapas cumprem funções para além das direções, relevos e funções geográficas.São telas reveladoras dos espaços e das gentes que neles viveram ou ainda vivem.São charadas refinadas, provocando devaneios e viagens imaginárias e também possíveis.Ao olhar-se um mapa em postura igual a ensinada pelo meu professor, numa visão quase aérea, podemos descobrir muito mais do que seria revelado pela visão frontal e linear costumeira.Experimentem fazer isso e verão pontos antes invisíveis para o mesmo olhar: o nosso.

Imaginem se fizéssemos tal experiência com um mapa pessoal, não, não é mapa astral, é visual mesmo.Pudéssemos nós sobrevoarmos nosso corpo e estudá-lo como num mapa, detalhá-lo em minúcias e melhor ainda, termos legendas para cada sentimento que se alternariam nas mais variadas cores, nos revelando, nos traduzindo e nos levando a cada dia de estudo a um aprimoramento positivo, a uma tradução mais pura e clara; o autoconhecimento ao vivo e a cores.Poderia esclarecer muitas dúvidas, facilitar muitas questões, favorecer e abrir possibilidades viáveis e reais.Seria um passeio por nosso mundo interior.Tentadora essa idéia, não?


O artista ilustrador, Ed Fairburn, apaixonado por mapas, como eu, criou um série encantadora usando tinta e lápis com sombra para criar rostos femininos expressivos em grande escala sobre mapas de rodovias, ferrovias e rios.O resultado é interessantíssimo e inovador.








" ... O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas.Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição."
( Clarice Lispector)




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Imagens: artefacto/artes





segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Novas experiências - gostos e regalos






( flor da pitangueira)


Fim da tarde de domingo passado, liguei para a netinha que atendeu ao telefone toda apressada para não perder parte do filme que assistia pela milésima vez e muito menos a degustação das pitangas que ela e a irmã devoravam em frente à televisão.
___ Tô comendo pitanga, vovó!

Foram trazidas na volta do fim de semana num hotel-fazenda no interior do estado.As duas se esbaldaram nas brincadeiras, andando de charrete, vendo tirar leite da vaca, colhendo verduras na horta, essas coisas que criança de cidade acha que" dá" em supermercado já tudo embaladinho e, como deleite final foram para o pomar colher pitangas e jabuticabas.As primeiras fizeram mais sucesso.Gosto é gosto.Eu atacaria as jabuticabas, mas elas acharam o máximo aquela frutinha avermelhada parecendo uma abóbora em miniatura( elas que disseram isso).

Cada vez mais os pais estão procurando oferecer aos filhos experiências assim, uma autêntica lição de vida natural e simples em contato direto com as origens dos alimentos, manejos e preparos, além de permitir uma aulinha básica de botânica, peraltices e gulodices à solta; as meninas souberam que as duas espécies frutíferas são genuinamente brasileiras,e que cobriam quase toda a extensão da Mata Atlântica quando ainda era considerada"mata", porque hoje em dia, lamentavelmente, está deixando de fazer jus ao nome devido ao criminoso desmatamento de que foi vítima.Os poucos sítios que ainda restam pelas regiões sudeste e sul, enchem os olhos pela exuberância de suas espécies nativas, tanto flora quanto fauna.

Fui procurar saber mais sobre a pitanga lançando mão do tio Google e descobri coisas bárbaras sobre a fruta: possui vitaminas A,C e B2, cálcio, ferro fósforo e propriedades antioxidantes (uau).Seu fruto é popularmente usado como cicatrizante e antienvelhecimento.Diante disso vou ligar pra lá novamente e pedir que deixem umas frutinhas pra mim, ora pitangas!





Pitangueira 

Termina agosto. A pitangueira flora,
A umbela verde cobre-se de alvura.
E, antes que de setembro finde a aurora,
Enrubesce a pitanga, está madura.


Da flor o fruto é de esmeralda agora.

Num topázio depois se transfigura,

E, pouco a pouco, um sol de estio o cora,
Dando a cor dos rubis à carnadura.



A pele é fina. A carne veludosa,

Vermelha como o sangue, perfumosa,

Como se humana a sua carne fosse.


Do fruto, às vezes, roxo como o espargo,

A polpa tem um travo doce amargo,

O sabor da saudade amargo e doce.

( Palmyra Wanderley/in: Caderno de Poesia)



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Imagens: portalsaofrancisco.com




quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Tempos Modernos









Ao pular da cama ao toque do despertador, os olhos mal abertos encontram  a maçaneta da porta do banheiro e na semi-escuridão alcança todos os apetrechos em cima da pia, conduz a higiene pessoal no automático e entra dentro da roupa em minutos, saindo
acelerada do quarto rumo à cozinha.

Se esta descrição lhe trouxe alguma lembrança, não é mera coincidência.Esta rotina pertence a uma entre dez mil mulheres mundo afora e não é prerrogativa das executivas, não, estes passos não se aderem apenas a profissionais de carteirinha, abrange uma população feminina que está além das estatísticas oficiais, mas dentro dos relatos similares das mulheres de ontem e de hoje.

Além da sobrecarga conhecida  e reclamada, ainda temos de conviver com as frustrações diárias impostas pelas contingências da vida moderna.Corremos atrás do relógio, ou na frente, como preferirem, como maratonistas desgovernadas.Passamos grande parte do dia, entrando e saindo de filas, vendo a hora escorrer e os compromissos gritarem em nossos ouvidos que estamos atrasadas. Desculpa, é palavrinha fácil e repetida constantemente e o pior é que acabamos por acreditar que a culpa pelos atrasos é nossa.Nos cobramos mais que ninguém, nos testamos sem piedade, esticamos nosso limite até o quase impossível e ainda nos culpamos pela imprevisibilidade.Pode isso?

Passou da hora de fazer-se uma faxina nas prioridades.Quem já fez, meus aplausos.Quem ainda não, está em tempo.Equaliza a semana, o dia, as horas e seja generosa consigo mesma destacando que mesmo a mulher-maravilha precisa dum ritmo mais suave pra combater os malfeitores e cuidar de seu bem-estar.Outro dia minha dentista me confidenciou que pela primeira vez deixou marido e os dois filhos(grandes) a chamarem insistentemente e não foi correndo atendê-los imediatamente, ao que foi questionada em coro pelos indignados por terem sido ignorados por ela, que muito calmamente lhes respondeu que estava num banho de beleza, se cuidando e que este momento era só seu por direito( Yeah!).

Temos de parar de perseguir a nota dez, um sete ou oito são excelentes e tem peso e consistência do melhor possível. Amem-se, garotas!



"Que nossas agendas ( também as interiores) nos permitam muitas vezes a plenitude do nada sorvido como um gole de champanhe, celebrando tudo."
( Lya Luft)




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Imagem: tumblr/jr