segunda-feira, 11 de julho de 2011

Conversa de Gente Grande



Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor.
Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer?
Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom?
É triste?
Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: ser, ser.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a?
Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Não quero ser. Vou crescer assim mesmo.
Sem ser. Esquecer.


Carlos Drummond de Andrade



Para que serve minha vida e o que vou fazer com ela? Não sei e sinto medo. Não posso ler todos os livros que quero; não posso ser todas as pessoas que quero e viver todas as vidas que quero. E por que eu quero? Quero viver e sentir as nuances, os tons e as variações das experiências físicas e mentais possíveis de minha existência. E sou terrivelmente limitada. (…)Tenho muita vida pela frente, mas inexplicadamente sinto-me triste e fraca. No fundo, talvez se possa localizar tal sentimento em meu desagrado por ter de escolher entre alternativas. Talvez por isso queira ser todos – assim, ninguém poderá me culpar por eu ser eu. Assim, não precisarei assumir a responsabilidade pelo desenvolvimento do meu caráter e de minha filosofia;
eis a fuga pra loucura..

Silvia Plath

Imagens: Borboleta-Azul.blogspot.com

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Bagagem


Os anos vão passando, a bagagem vai aumentando porque existem muitas coisas que você recolhe pelo caminho, por pensar que são importantes...

A um determinado ponto do caminho começa a ficar insuportável carregar tantas coisas, então você pode escolher ficar sentado a beira do caminho, esperando que alguém o ajude, o que é difícil, pois todos que passarem por ali já terão sua própria bagagem.

Você pode ficar a vida inteira esperando, até que seus dias acabem....
Ou você pode aliviar o peso, esvaziando a mala. Mas, o que tirar?

Você começa tirando tudo para fora...veja o que tem dentro:Amor, Amizade...nossa ! Tem bastante, curioso, não pesa nada...

Tem algo pesado.... você faz força para tirar.... era a Raiva - como ela pesa ! Aí você começa a tirar e aparecem a Incompreensão, Medo, Pessimismo... nesse momento, o Desânimo quase te puxa pra dentro da mala .... Mas você puxa-o para fora com toda a força, e no fundo da mala aparece um Sorriso, que estava sufocado no fundo da sua bagagem.... Pula para fora outro sorriso e mais outro, e aí sai a Felicidade...

Aí você coloca as mãos dentro da mala de novo e tira pra fora um monte de Tristeza...
Agora, você vai ter que procurar a Paciência dentro da mala, pois vai precisar bastante....

Procure então o resto: a Força, Esperança, Coragem, Entusiasmo, Equilíbrio, Responsabilidade, Tolerância e o Bom e Velho Humor. Tire a Preocupação também. Deixe de lado, depois você pensa o que fazer com a ela....Bem,sua bagagem está pronta para ser arrumada .
Agora é com você.

E não se esqueça de fazer essa arrumação mais vezes, pois o caminho é MUITO, MUITO LONGO, e sua bagagem, poderá pesar novamente.

(Desconheço a autoria_ se alguém souber por favor, comunique-me)


segunda-feira, 4 de julho de 2011

Brincadeira Boa

Juntei-me à Glorinha, a Beth,a Vivian e a Zizi, nessa brincadeira boa e gostosa; a de espalhar confetes literários pelos Blogs.
Funciona assim:  abrir um livro à sua escolha ou que esteja lendo no momento. Abrir na página correspondente à sua idade, para mim a 55 e, transcrever no post um trecho que considera relevante.
Quem quiser participar é só seguir os preceitos e juntar-se a nós semeando boas palavras pela net.
Está feito o convite!


Escolhi o livro em leitura atual: O Livreiro de Cabul, Asne Seierstad, edit: Record. 



"No Afeganistão, mulher apaixonada é tabu. È proibido pelos conceitos de honra rigorosos do clã e pelos mulás.Os jovens não têm o direito de se encontrar para amar, não têm o direito de escolher. Amor tem pouco a ver com casamento, ao contrário, pode ser um grave crime, castigado com a morte. Pessoas indisciplinadas são mortas a sangue-frio. Caso apenas um dos dois tenha de ser castigado com a morte, invariavelmente é a mulher.


Mulheres jovens são, antes de mais nada, um objeto de troca e venda. Um casamento é um contrato entre famílias ou dentro de uma família.A vantagem que o casamento pode ter para o clã é o que determina tudo__
sentimentos raramente são levados em consideração. Durante séculos,as mulheres afegãs têm suportado a injustiça cometida contra elas.Mas em canções e poemas as próprias mulheres dão seu testemunho.São canções para ninguém ouvir,e até o eco permanece nas montanhas ou no deserto.


Elas protestam "se suicidando ou cantando", escreveu o poeta afegão Sayed B. Majrouh num livro de poemas das próprias mulheres pashtun( etnia afegã)..."




Imagem:  menina afegã, Sharbat Gula, clicada por McCurry em 1984.

domingo, 3 de julho de 2011

Doçuras da Vida

Em visita ao Blog da Beth,Mãe Gaia, comentamos sobre as crônicas de Rubem Alves, um de nossos queridos autores e o enfoque dado nas maravilhas naturais que desfrutamos à nossa volta e em viagens. Daí me recordei de sabores únicos provados em Jerusalém, durante o passeio que lá fizemos em fevereiro de 2010. 


Em cada cidade visitada, pudemos saborear essa maravilha de fruto__ as Tâmaras.
È como se colocar uma bala na boca.Sente-se o açúcar da fruta derretendo-se lentamente ao paladar.Incomparável!
Esse tipo chama-se Medjou, e com seu açúcar prepara-se o mel de tâmaras.Em todos os hotéis delícias como essas vem dispostas em arrumadas bandejas no café da manhã, sortidíssimo.


No mercado, Machne Yehuda, o sortimentos de iguarias, frutas secas e frescas, condimentos,doces, carnes de cordeiro e aves e objetos típicos, ofusca os sentidos.
Não se sabe pra onde olhar e, o que provar primeiro. 


Quando vc pensa que já provou de tudo, lhe chega de surpresa,a Romã.O suco é puro mel! Extraído na hora pelos ambulantes que pupulam com suas carrocinhas pelas vielas da velha Jerusalém.
A fruta avermelhada, grande como uma maçã polpuda é altamente apreciada por todos, nativos e turistas.

Além de toda forte simbologia e historicidade da região, seus sabores fundem-se a mais grata das memórias do lugar.


Aqui em casa temos essa linda romãzeira. Está sempre carregada, cuidada, adubada, mas seus frutos não possuem nem um centésimo do doce das do Médio Oriente. Mas, não desisto dela não, ainda vou conseguir que ela se aproxime das romãs-mel de Jerusalém.


Essa é uma ilustração de romãzeira que se vê muito por lá.E, daí se constata que:
"... é a terra donde jorra o leite e o mel!"
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Um doce e caloroso domingo p/ vcs!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Brincadeira Séria



Faz de conta: você acordou, ligou para o salão e marcou um horário. Na hora do almoço, foi lá e pediu: Corta bem curto. O cabeleireiro não acreditou no que ouvia. Afinal, seus quase cinquenta centímetros de cabelo sempre foram, na sua cabeça (literalmente), uma espécie de atestado da sua feminilidade. Mas agora eles teriam de ser curtos. Para que suas ideias ficassem longas. Ele colocou a mão um pouco abaixo do seu ombro: Mais ou menos aqui? Você segurou a mão dele, levou-a na altura da sua orelha e disse: Tosa.


 Depois, você passou naquela loja onde tem uns vestidos moderninhos e coloridos. Você entrou e pediu aquele cor de laranja com borboletas, muito mais curto do que os que você costuma usar. Aproveitou e pediu a sapatilha da vitrine. Arrancou o seu terninho bege, sua camisa branca e seu escarpim marrom. Deixou tudo por lá mesmo, no provador. E quando a vendedora perguntou o que fazer com aquilo, você disse: Queima.


 Quando você retornou ao trabalho, uma hora depois do horário de costume, com aquele vestidinho e com os cabelos daquele jeito, a roda em torno de você foi se formando. Uns, animadíssimos. Outros, nem tanto. Alguns reprovaram. Como as coisas já não andavam muito bem por ali, sua chefe lhe chamou no final do dia para conversar, e avisou que as coisas não poderiam continuar daquele jeito, ou ela teria que substituir você. E você disse: Substitui.


 Saindo do escritório, deu vontade de jantar naquele bistrô onde você acha que só deve ir no dia do seu aniversário ou outra data importante. Você mal encostou seu carro e já veio o dono da rua, dizendo que eram dez pratas para estacionar ali. Como você não deu bola, o homem começou aquela conversinha surrada dizendo, na entrelinha da entrelinha, que um eventual não-pagamento antecipado incorreria em riscos indesejáveis na pintura do seu bólido. Você pegou o celular, digitou três números, mostrou o visor para o homem e, já com o dedo na tecla “call”, disse: Risca.


 Faz de conta que você chegou em casa e sua filha de dezessete anos estava na sala com o namorado. Você teve que contar de novo a história daquele vestido e daquele cabelo e, como chovia, ela sondou se o rapaz poderia dormir ali. E, enquanto jogava no lixo aquela agendinha que você só usava no trabalho, você disse: Pode.


 Quando se deitou para dormir, aquele anjo que costuma vir conversar com você antes do sono se empoleirou na cabeceira da sua cama. Elogiou o cabelo, o vestido, a decisão no trabalho, o presente de não-aniversário, o chega-pra-lá no dono da rua, a atitude com a filha. Só por curiosidade, perguntou que bicho havia mordido você. E você, se ajeitando no travesseiro e desligando o abajur, disse: Nenhum.


 No dia seguinte, vendo que eram dez da manhã e você ainda não havia se levantado, sua filha entrou no quarto, vocês conversaram e no final ela perguntou como é que vocês viveriam dali para frente. Com certa ironia, ela arriscou dizer que com as bolsas e os badulaques que você produzia e vendia nos finais de semana é que não seria. E você disse: Sim.


 À tarde, você procurou o dono daquele galpão que você havia visto para alugar, perfeito para um atelier, e fez uma oferta. O homem coçou a cabeça, pediu um pouquinho mais, e você disse: Fechado.


 À noitinha, você foi até a casa dos seus avós, assim, de surpresa. E, de surpresa, você os beijou. Quando eles perguntaram o que era aquilo, você disse: Amor.


 Faz de conta que foi assim. Faz de conta que foi desse jeito que você virou a mesa com as quatro cadeiras e viveu, serenamente, seu dia de fúria. Que resolveu não perder mais tempo, fazer o que gosta e ser do jeito que você, só você, acha que é melhor.
 Faz de conta que você morreu. E que alguém lhe deu a oportunidade de voltar para um terceiro tempo.
 Então. Agora vai lá e faz tudo de verdade! 


Silmara Franco