Nem bleu, nem blanche, Rouge!
Tive na semana passada uma inusitada experiência dentro da mais pura rotina, um exame de imagem para a circulação.
Cheguei ao local apressada , em cima da hora, mesmo tendo tomado a precaução de sair mais cedo de casa, mas esqueci-me do caótico trânsito de Niterói. Então, com a respiração compassada me apresentei na recepção e aguardei ser chamada.
Enquanto esperava que meus batimentos se regularizassem fui me dando conta que há muito meu fôlego não é mais o mesmo, pudera! São cinquenta e seis anos de ritmo diuturno( ainda bem), sem muitos cuidados.E não era por este motivo a minha ida aquela clínica.
Tomo algumas precauções banais com o coração, tipo, praticar exercícios, comer com pouca gordura e essas outras receitinhas simples, mas segundo a opinião pública, confiáveis.
Poi é, estava lá eu, na sala de espera, quando fui chamada ao consultório para realização do exame.O médico me fez perguntas de praxe e começou o exame.A mente divagando sobre todas as coisas a fazer naquele dia, foi subitamente tragada pelo som que vinha daquela máquina robótica num fragor que enchia a sala.
Era a minha circulação acontecendo.Meu sangue percorrendo meu corpo. A essência da minha vida ali, aos meus ouvidos...Tive um choque de realidade como se todas as idades que tive se fundissem em imagens aceleradas num trailler.Eu e meu corpo num encontro absoluto.
Razão e emoção se alternavam na consciência daquele fluxo.
Banalidade, dirão alguns. Medo, dirão outros.Constatação, digo eu, para além da poesia, para além da consciência, para dentro de mim, um encontro necessário e marcante.
Episódio que pede uma paráfrase, como um marcador de páginas que nos permite retomá-las sempre que quisermos:
"... Hoje, não! Hoje eu não quero nada que me tire o privilégio de sentir a textura densa da vida. Nada que me faça perder a oportunidade de me perdoar pelas minhas próprias mazelas. Porque hoje o meu desejo é simples: Quero a paz lá fora para me encontrar aqui dentro."
( Érica Gaião)
Em vermelho ilumino o espaço através das pinturas de Jia Lu.

