Arte de Flávio Lima
Por aqui a chuva cai.Cada pancadão forte que parece cachoeira celeste.Entre uma estiagem e outra o sol se espreme entre nuvens cinzentas, mas não reina por muito tempo. Ares outonais!
Em meio a sol e chuva, uma vizinha está de mudança.Ouço o vaivém dos carregadores na faina de tirar a mobília, os pertences, a história feita de objetos da família.
Mudança é sempre um trabalhão pra todos os envolvidos.A promessa de novidades anima a cansativa rotina de tirar tudo de seu antigo lugar e recolocar no novo que espera plácido sua ocupação.
Dentre as mudanças de casa que fiz, lembro de uma especialmente marcante. Foi em Brasília. Mudei-me do lago Norte de volta para a Asa Sul em fins de junho com um barrigão de 8 meses e meio de gravidez do quarto filho e levando minha escadinha ( de 6 anos, 4 anos e 2 anos) pela mão, começo já na semana marcada a encaixotar as coisas pequenas.
Tira daqui, guarda de lá, embrulha de cá, pede caixa no mercado, pede ajuda dos pequenos...quando meu marido chega e diz para parar tudo aquilo.
__Mas como?___ pergunto eu.È muita coisa pra encaixotar!
___ Fica tranquila___ responde.A mudança que contratei cuidará de tudo. Você não vai fazer nada!
Parei meio descrente, mas aceitei a informação.
Chegou o dia D!
E a cena logo se montou no entra e sai daquela gente toda pela casa afora.Assisti a rapidez que os carregadores acondicionavam tudo em enormes caixas de madeira com divisórias para as diferentes coisas que abrigavam.
Levou um dia inteiro.Lá pelas 17h, trancamos a porta da casa vazia e rumamos para o novo endereço.
Mal entramos no apartamento, fomos seguindo pelo exército de formigões trazendo nosso pertences.
Primeiro montaram as camas, depois trouxeram as mesas, em seguida vieram com as caixas e aí, entrei em estado de topor.Os carregadores abriam as caixas e derramavam seu conteúdo em cima das camas, das mesas, do chão, esvaziando tudo ao mesmo tempo, nem me dando chance de dizer para onde ia tal conteúdo, pois quando eu conseguia direcionar um, outros três já estavam descobertos nos lugares mais inusitados.
Isso durou mais ou menos 1h e logo fechei a porta atrás do último homem.Ao que me voltei desolada para aquela área de guerra que parecia um armazém de entulhos.Tinha panelas, frigideiras, talheres misturados com lençóis, produtos de higiene e limpeza, brinquedos das crianças...Tive vontade de chorar e, fiz questão de nem olhar pra meu marido quando me disse calmamente:
___ Logo, logo, vc arruma tudo isso. Não se preocupe!
Como ele está vivo e gozando de boa saúde até hoje, vcs sabem que eu me CONTIVE!!!!

