O porquê das intenções conflitantes é feito as bicadas do pequenino pica-pau no tronco em frente à janela martelando os instantes sem trégua, fazendo os ponteiros internos mexerem-se num pisca-alerta sobre sua passagem constante, fremente, precisa...notas sobre as horas medidas.
Nos olhos pregados na vidraça vejo o açoite do vento nos galhos, a marola da enxurrada pela rua e me conformo diante o fato da impossibilidade concreta; não poderei caminhar.
Não hoje, domingo chuvoso, ventoso, cinzento.Convite ao recolhimento, às lembranças dos álbuns de fotografias, rever dias, traçar planos, ler aqui e acolá, pinçar palavras prolíferas, descansar, talvez, viajar( sempre boa opção), que por agora fica reservada em acesso sabido e próximo.
O exercício terá de esperar, ceder a vez para o estar, devanear simplesmente.
Chove
Fernando Pessoa
" Chove. Há silêncio porque a mesma chuva
não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
do que não sabe. O sentimento é cego.
Chove. Meu ser( quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
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